sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

«THE COUNTRY OF THE HOUYHNHNMS»

Para falar dos Yahoos, se necessita
que as palavras funcionem de pedra:
se pronunciadas, que se pronunciem
com a bôca para pronunciar pedras;
se escritas, se escrevam em duro
na página dura de um muro de pedra;
e mais que pronunciadas ou escritas,
que se atirem, como se atiram pedras.
Para falar dos Yahoos, se necessita
que as palavras se rearmem de gume,
como numa sátira; ou como na ironia,
se armem ambiguamente de dois gumes;
e que a frase se arme do perfurante
que têm no Pajeú as facas-de-ponta:
faca sem dois gumes e contudo ambígua,
por não ver onde nela não é ponta.
2.
Ou para quando falarem dos Yahoos:
furtar-se ao ouvir no mínimo;
ou ouvir no silêncio todo em pontas
do cacto espinhento, bem agrestino;
aviar e ativar, debaixo do silêncio,
o cacto que dorme em qualquer não;
avivar no silêncio os cem espinhos
com que pode despertar o cacto não.
Ou para quando falarem dos Yahoos:
não querer ouvir falar, pelo menos;
ou ouvir, mas engatilhando o sorriso,
para dispará-lo a qualquer momento;
ouvir os planos-afinal para os Yahoos
com um sorriso na boca, engatilhado:
na boca que não pode balas, mas pode
um sorriso de zombaria, tiro claro.
- João Cabral de Melo Neto

sábado, 30 de junho de 2018

Soneto aniversário

Eu agora sempre esqueço a idade
E faço as contas para saber
Quantas voltas a Terra deu
(desde que vim para a claridade)

Em torno do Sol que Deus criou.
Aprendi cores e sons reconhecer
Depois me contaram, Senhor meu,
Tu morreu na cruz e me salvou.

Eu que nunca fiz por merecer
Essa tua infinita bondade
Ovelha desgarrada que sou

E ainda assim com piedade
Consegues até perdoar-me por ser
O filho pródigo que não voltou

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Meu vizinho


Na última noite eu verdadeiramente sonhei que Jesus estava morando aqui ao lado.
No sonho conversei com Ele como quem conversa com um velho amigo,
e sinto vergonha, mas não evitei o questionamento: 
como podia Ele ter escolhido morar ali (em vez de comigo),
na casa de quem eu odiava tanto em pensamento?
E Ele obviamente me respondeu que eu devo amar o meu vizinho.
Acordei muito triste, pois como posso obedecer-Te, meu Senhor?
Se me enviasse a cem guerras, eu iria mesmo sozinho,
estaria mais preparado.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Outro soneto para meu pai

O senhor nunca conta seus sonhos
E nosso Botafogo sempre vai mal
Torcemos para um time bisonho
E nascemos no país do carnaval.

Em muitas coisas pareço contigo
Mas tua calma parece ser maior.
Espelho-me em ti, velho amigo
Ao tentar fazer sempre o melhor.

Contaram-me que quando eras novo
O senhor era muito mais nervoso
Até apelidaram-te, teus irmãos

Então me ensine, pai: como eu faço
Para conseguir uns nervos de aço
E nunca ser chamado de "Alteração"?


09/07/2016

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma faca só lâmina



(João Cabral de Melo Neto)


Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A.
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B.
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C.
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se embotam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D.
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré-baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E.
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja em algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que esta tem as mãos férteis.
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F.
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja mesmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G.
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde.

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa

que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.

H.
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa faca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente

o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz ,
certa eletricidade,

mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.

I.
Essa lâmina adversa,
como o relógio ou a bala,
se torna mais alerta
todo aquele que a guarda,

sabe acordar também
os objetos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha
a vida mais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.

Em cada coisa o lado
que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas como a cera

despem-se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas.

Pois entre tantas coisas
que também já não dormem,
o homem a quem a faca
corta e empresta seu corte,

sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.

*

De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que mais condensa o homem
quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;

pois de volta da faca
se sobe à outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,

e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso
porém forte a dentada

e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pôde a linguagem,

e afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,
prima, e tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta.

domingo, 27 de março de 2016

Tradução pascoal

Simão, o cirineu
Aquele que carregou a cruz
Eu estava em meu caminho para a lavoura quando avistei-Lhe carregando Sua cruz; e Ele era seguido por uma multidão.
Seu fardo parou-Lhe muitas vezes, pois Seu corpo estava exausto.
Então um soldado romano aproximou-se de mim, dizendo "venha, você é forte e robusto; carregue a cruz deste homem."
Quando ouvi essas palavras meu coração palpitou dentro de mim e fiquei grato.
E eu carreguei Sua cruz.
Ela era pesada, pois era feita de álamo encharcado pelas chuvas de inverno.
E Jesus olhou para mim. E o suor da Sua testa descia até Sua barba.
Novamente Ele me olhou e disse "Tu também beberás deste cálice? De fato tu sorverás esta borda comigo até o fim dos tempos."
Dizendo assim, Ele pôs Sua mão sobre meu ombro livre. E caminhamos juntos em direção à Colina da Caveira.
Mas agora eu não sentia mais o peso da cruz. Eu sentia apenas Sua mão. E era como a asa de um pássaro sobre o meu ombro.
Então alcançamos o topo da colina, e lá eles deveriam crucificar-Lhe.
E então eu senti o peso da árvore.
Ele não pronunciou nenhuma palavra quando eles colocaram os pregos em suas mãos e pés, nem emitiu Ele qualquer som.
E os Seus membros não tremeram sob o martelo.
Era como se Suas mãos e pés tivessem morrido e viveriam novamente quando banhadas em sangue. Também era como se Ele buscasse os pregos como um príncipe busca seu cetro; e como se Ele ansiasse ser alçado às alturas.
E meu coração não pensou em ter pena dEle, pois eu estava preenchido demais para imaginar.
Agora, o homem cuja cruz eu carreguei havia se tornado minha cruz.
Se dissessem a mim novamente "carregue a cruz deste homem", eu iria carregá-la até que meu caminho terminasse no túmulo.
Mas eu iria implorá-Lo para que pusesse Sua mão sobre meu ombro.
Isso aconteceu muitos anos atrás; e ainda quando eu sigo pela fileira da plantação, e naquele momento sonolento antes de dormir, eu penso naquele Amado Homem.
E eu sinto a Sua mão alada, bem aqui, no meu ombro esquerdo.
Khalil Gibran

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Poema "Sansão Expandido", que publiquei no facebook, para arquivo:



Sansão expandido

Ainda jovem eu despedacei um leão
Tão fácil como se fosse um cabrito
Vai dizer que não tenho coração
Você, fracote, morreria, eu virei mito.

Juntei trezentas raposas em chamas
E meus inimigos conheceram a fome
De estômago vazio em suas camas
Nunca mais esquecerão meu nome.

Com uma queixada de jumento,
Fiz deles jumentos também.
Amontoei-os em um momento,
Mandei milhares para o além.

Em Gaza vi o portão da cidade,
Arranquei-o com tranca e tudo.
Tão fraquinho, que infelicidade
Não me servia nem para escudo.

Na última quadra fiquei careca
E até bem fraco que nem você.
Riram, mas eu que preguei a peça,
Nunca viram tanto filisteu morrer.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Arquivando um poema

Arquivando um poema difícil de encontrar:

A LÁZARO
Está bem, está bem,
abriram-te a caverna,
sacudiram-te o sono,
mandaram-te sair,
e o cão à voz do dono
abandona ao ouvir
a solidão que tem.
Mas a tua era eterna!
Ninguém te perguntou
se querias voltar,
sofrer, recomeçar,
ser... Gritaram-te: "Vem! ".
Eu não iria... "Não vou! ".


Bruno Tolentino

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma resposta a Cine Íris

Novas novelas
Misturam-se com velhas:
Pregar a essa Nínive odienta
Tal Jonas, minha alma receia
Preferindo enfiar-me no ventre
daquela enorme baleia.

Perdoe-me a aspereza
Com que nego a missão que me impôs
É que ainda nos anos noventa
Tive a infeliz certeza
De que fui nascido depois

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Poema de G. K. Chesterton, tradução minha

Da autoria de um bebê que não nasceu

Se as árvores fossem altas e a grama curta,
Como em algum conto maluco,
Se aqui e acolá um mar fosse azul
Além do branco que ofusca,

Se uma bola de fogo pendesse no ar
Para me aquecer durante o dia,
Se cabelo verde crescesse nas altas montanhas
Eu sei o que eu faria.

No escuro eu permaneço; sonhando que há
Grandes olhos, frios ou gentis,
E ruas tortas e portas silenciosas,
E homens detrás delas a morar.

Que as nuvens negras venham: melhor uma hora
Sair para chorar e lutar,
Que toda a eternidade a governar
Os impérios da noite a fora.

Eu acho que, se me deixassem
Adentrar o mundo e lá fazer morada,
Eu seria bom durante todos os dias
Que eu passasse na terra encantada.

Não ouviriam de mim um gemido
De egoísmo ou desdém
Se apenas eu encontrasse a porta
Se apenas eu fosse nascido.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Tchau, Seedorf!


E o craque holandês Clarence Clyde Seedorf, 4 vezes vencedor da Champions League e único jogador a vencer esse torneio por 3 clubes diferentes, encerrou sua carreira de futebolista profissional no Botafogo de Futebol e Regatas, clube de Nilton Santos. Em 2013, aos 37 anos, bateu seu recorde de jogos e gols em uma temporada, 56 e 15. Marcou um total de 24 gols pelo Botafogo, mais que pelo Real Madrid, 20, e Inter de Milão, 14. Obrigado, Seedorf, por ter escolhido o meu clube para encerrar a sua brilhante carreira, e pelo futebol de altíssimo nível que demonstrou, mesmo jogando com uma idade em que a maioria dos jogadores já teria parado. Que sua carreira como treinador seja igualmente brilhante e repleta de vitórias.


domingo, 11 de agosto de 2013

Soneto Para o Meu Pai

O semblante do meu pai é grave,
Temível para o menino aqui dentro.
Queria conhecer seus pensamentos
Sempre guardados aí nesse enclave.

Acalanto um sonho com o momento
Em que derrubo a porta, sem chave
O menino cede ao homem, eu entro
E sinto tua alma, e ela é suave.

Hoje também tornou-se grave
O meu semblante, como ave
De mesma plumagem, argumento

Que é por ti que eu me oriento
Pedindo desculpa pelo entrave
De ser um bocadinho rabugento.

domingo, 23 de junho de 2013

Piada atual

Um português, um espanhol e um italiano encontraram um índio feroz na mata. O índio disse:
- Cara pálida pedir o que quiser, se índio trouxer faz canoa com couro de vocês!
Então o espanhol pediu um computador de última geração. O índio trouxe, matou o espanhol, tirou o couro e fez dele uma canoa.
Depois o italiano pediu um avião. O índio trouxe, matou o espanhol, tirou o couro e fez dele uma canoa.
Então chegou a vez do português e ele disse:
- Eu quero um garfo.
E o índio respondeu:
- Garfo? Muito fácil, cara pálida!
Então o índio trouxe um garfo. O português pegou o garfo, se furou todinho enquanto dizia:
- Com meu couro ninguém faz canoa! Com meu couro ninguém faz canoa!

Lembro dessa piada de quando era pequeno demais pra entendê-la. E hoje, relembrando-a, não posso deixar de notar uma certa "verossimilhança".

terça-feira, 28 de maio de 2013

Thomas - Gojushiho-sho Shotokan

Releitura

Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me:

“O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.

- Nelson Rodrigues

domingo, 1 de abril de 2012

Post do Facebook sobre internação de Eliot

Desde terça-feira, 27/03, o meu filhote está internado no Hospital da Unimed aqui em Feira de Santana, o único hospital credenciado pelo plano de saúde Cassi que faz internação infantil. Da terça pra quarta ele dormiu junto com a mãe numa espécie de enfermaria infantil completamente precária e inapropriada, num tipo de maca pra crianças, sem grades, obrigando a mãe a passar a noite acordada, tomando conta, sentada numa daquelas cadeiras de plástico de varanda que se compra em supermercado. No outro dia pela manhã quando fui visitá-lo antes de ir ao trabalho eles ainda estavam lá, e o hospital dizia providenciar um apartamento até o meio-dia. Voltei à tarde, 15h, e meus amores continuavam no mesmo estado. Dessa vez a enfermeira chamou um segurança para me expulsar do local, alegando que só podia ficar um acompanhante. Fiquei sabendo que pela manhã acontecera o mesmo com a minha mãe. Comecei a reclamar dizendo que minha esposa já estava ali cansada, que eu estava lá pra ajudá-la e não estava atrapalhando e ela falou que era por causa da superlotação. Eu reclamei das condições do local e questionei como permitiam que uma mãe passasse a noite ali com um filho de 8 meses, mas não permitiam que o pai viesse ajudar no outro dia, ao mesmo tempo em que disse que não sairia de lá nem obrigado. Disse que quem deveria sair dali era ela, que não estava fazendo nada. A enfermeira considerou minha reação como uma grande falta de educação da minha parte, que educação vinha de berço (engraçado ela dizer isso, pois berço é justamente o que faltava e um dos motivos da minha indignação), não era obrigada a ouvir aquelas coisas etc. E eu falei que ela ouvia porque tinha falado, se tivesse ficado calada não teria ouvido nada. Continuei a reclamar das condições do local e do sofrimento dos meus amores. Ela respondeu, como uma pessoa de sensibilidade notável, que quem estava passando por aquilo era meu filho e não eu. Eu nem consegui acreditar que tinha ouvido aquilo, e não entendi como ela imaginou que isso fosse algum atenuante pra situação, pois sempre achei que qualquer pessoa normal sofreria muito mais pelo filho do que por si própria. A coisa ficou nesse pé, e só depois das 18h o hospital acomodou meu filho e minha mulher num apartamento. Acomodou muito mal, diga-se de passagem, pois o quarto não tinha berço, apenas um leito para pacientes adultos, e minha esposa ainda tem que vigiar o sono dele durante a noite. Mesmo após pedir o berço todos esses dias, não conseguimos nada. Na quinta-feira meu filho de 8 meses fez um punção lombar. Na sexta-feira meu filho foi sedado para fazer uma tomografia. Após acordar do sedativo, uma enfermeira tentou ativamente assassinar meu filho levando ao quarto dele um xarope (que imagino aceleraria os batimentos cardíacos e misturado aos efeitos de um sedativo poderia provocar parada cardíaca), e teimando que deveria dar o xarope mesmo quando questionado a respeito pela mãe. Não deu porque o menino estava mamando e minha mulher pediu que esperasse. Após isso minha mulher leu o nome que estava no remédio e era para Daniel. Todo mundo sabe que meu filho se chama Eliot e até hoje não sabemos se Daniel recebeu o remédio correto. Hoje, sábado, fiquei sabendo que derramaram o material coletado na punção lombar e por isso não tinham feito o exame. Amanhã meu filho precisará passar novamente por esse procedimento doloroso e arriscado.
A boa notícia é que o menino tem tomado antibióticos e, apesar do Hospital Unimed, aparenta estar com a saúde de um touro.

Como o texto está sendo compartilhado e comentado inclusive por várias pessoas que não conheço, meu pai me aconselhou a trocar o que escrevi, onde disse que a enfermeira "tentou ativamente assassinar meu filho". Eu não vou trocar. O que escrevi, escrevi. É uma maneira de falar. Eu sei que ela não tinha esse objetivo, pois acredito que seja no mínimo uma pessoa sã, mas esse poderia ser o resultado da sua atitude desleixada e irresponsável. Eu não tenho como provar que isso aconteceu, exceto pelo testemunho da minha esposa, mas faço questão de deixar registrado, e com essas palavras mesmo, pois era a vida do meu filho que estava em perigo, por conta da negligência dela.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Frases de Millôr Fernandes

* “Xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez”

* “Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem”

* “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris”

* “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim” 

* “Otimismo é atirar-se do 20° andar e, ao passar pelo 18°, constatar: até aqui, tudo bem”

* “Os corruptos podem ser encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil”

* “A corrupção anda tão generalizada que já tem político ofendido ao ser chamado de incorruptível”

* “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”

RIP

domingo, 29 de janeiro de 2012

Trecho de poema de T. S. Eliot

We build in vain unless the Lord build with us.
Can you keep the City that the Lord keeps not with you?
A thousand policemen directing the traffic
Cannot tell you why you come or where you go.
A colony of cavies or a horde of active marmots
Build better than they that build without the Lord.
Shall we lift up our feet among perpetual ruins?
I have loved the beauty of Thy House, the peace of Thy
sanctuary,
I have swept the floors and garnished the altars.
Where there is no temple there shall be no homes.
Though you have shelters and institutions,
Precarious lodgings while the rent is paid,
Subsiding basements where the rat breeds
Or sanitary dwellings with numbered doors
Or a house a little better than your neighbour's;
When the Stranger says: "What is the meaning of this city?
Do you huddle close together because you love each other?"
What will you answer? "We all dwell together
To make money from each other"? or "This is a community"?
And the Stranger will depart and return to the desert.
О my soul, be prepared for the coming of the Stranger,
Be prepared for him who knows how to ask questions.


Nós construímos em vão, exceto se o Senhor constrói conosco.
Podes tu guardar a Cidade se o Senhor não guardá-la contigo?
Mil policiais controlando o trânsito
Não podem te dizer porque tu viestes ou pra onde tu vais.
Uma colônia de porquinhos-da-Índia ou um bando de marmotas
Constroem melhor do que aqueles que constroem sem o Senhor.
Devemos nós alçar nossos pés por entre ruínas perpétuas?
Eu tenho amado a beleza da Tua Casa, a paz do Teu
santuário,
Eu tenho varrido os assoalhos e ornado os altares.
Onde não há nenhum templo não haverá nenhum lar.
Apesar de vós terdes abrigos e instituições,
Alojamentos precários enquanto o aluguel está pago,
Baixos porões onde os ratos procriam
Ou residências sanitárias com portas numeradas
Ou uma casa um pouco melhor que a do teu vizinho;
Quando o Desconhecido disser: "Qual o propósito desta cidade?
Vocês se amontoam próximos uns dos outros porque se amam uns aos outros?"
O que vós respondereis? "Nós todos vivemos juntos
Para ganhar dinheiro uns dos outros"? ou "Isto é uma comunidade"?
E o desconhecido partirá e retornará para o deserto.
Ó, minh'alma, esteja preparada para a vinda do Desconhecido,
Esteja preparada para aquele que sabe como fazer perguntas.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Coração Louco



Música do filme "Coração Louco", de 2009, com Jeff Bridges. Segue letra e minha tradução:

Fallin' and Flyin'

I was goin’ where I shouldn’t go
seein’ who I shouldn’t see
doin’ what I shouldn’t do
and bein’ who I shouldn’t be

a little voice told me it’s all wrong
another voice told me it’s alright
I used to think that I was strong
but lately I just lost the fight

funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while
funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while

I got tired of bein’ good
started missing that old feeling free
stop actin’ like I thought I should
and went on back to bein’ me

I never meant to hurt no one
I just had to have my way
if there is such a thing as too much fun
this must be the price you pay

funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while
funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while

you never see it comin’ till it’s gone
it all happens for a reason
even when it’s wrong
especially when it’s wrong

funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while
funny how fallin’ feels like flyin’
for a little while

I was goin’ where I shouldn’t go
seein’ who I shouldn’t see
doin’ what I shouldn’t do
and bein’ who I shouldn’t be

***

Caindo e Voando

Eu estava indo aonde não deveria ir
Vendo quem eu não deveria ver
Fazendo o que eu não deveria fazer
E sendo quem eu não deveria ser

Uma vozinha me contou que estava tudo errado
Outra voz me disse que estava tudo certo
Eu costumava pensar que eu era forte
Mas ultimamente eu simplesmente perdi a luta

Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante
Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante

Eu cansei de ser bonzinho
E comecei a sentir falta da velha liberdade
Parei de agir como eu pensei que deveria
E voltei a ser eu mesmo

Nunca tive intenção de machucar ninguém
Simplesmente tive que seguir o meu caminho
Se há algo como excesso de diversão
Este deve ser o preço que se paga

Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante
Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante

Você nunca vê chegar até que já se acabou
Tudo acontece por uma razão
Mesmo quando é errado
Especialmente quando é errado

Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante
Engraçado como cair se confunde com voar
Por um instante

Eu estava indo aonde não deveria ir
Vendo quem eu não deveria ver
Fazendo o que eu não deveria fazer
E sendo quem eu não deveria ser

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Marcador de combustível

A maioria das pessoas não vê nenhum mistério no funcionamento do marcador de combustível do automóvel. Quando o ponteiro está apontado para a posição cheio, o tanque está cheio. Quando está marcando a posição vazio, o tanque está vazio. Simples, não? Nem tanto. Você já deve ter notado que nos primeiros 40 ou 50 quilômetros, o ponteiro praticamente não se mexe, ao passo que quando você está nas últimas gotas de combustível, o ponteiro cola no vazio e te deixa se borrando de medo de uma pane seca, apesar de que, quando você completa o tanque, descobre que ainda tinha pelo menos um ou dois litros. A grande razão desse fenômeno é a bóia que mede o nível de combustível. Ela é muito parecida com a bóia de um reservatório de água ou de uma descarga de privada. Uma haste fina com uma peça de plástico na ponta, mais grossa que a haste. Por ser mais grossa que a haste, a peça de plástico vai ficar completamente submersa quando o tanque estive cheio, e continuará a boiar no nível máximo após consumir alguns litros, não gerando nenhuma alteração no ponteiro do marcador de combustível, como podemos ver na imagem.

Pela razão oposta, o ponteiro também não vê muita diferença entre quase vazio e completamente vazio: